Liderança adaptativa no paraquedismo militar: Lições do Incidente Aéreo em 1998
- Fernando G. Montenegro
- há 3 dias
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Naquela sexta-feira, 8 de maio de 1998, o 1º Batalhão de Forças Especiais preparava um Destacamento Operacional para atuar na região fronteiriça com a Colômbia, a famosa Cabeça do Cachorro, devido a informações de inteligência sobre a atuação das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. No meio dessa intensa atividade operacional, surgiu uma missão de adestramento de salto livre a 12.000 pés na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. O então capitão Placídio, comandante da Companhia de Ações de Comandos, assumiu o posto de Mestre de Salto Livre da aeronave C-95 Bandeirante. Eu conhecia pessoalmente todos os paraquedistas que embarcaram e havia sido o comandante da companhia de Ações de Comandos no ano anterior. Eram militares altamente qualificados, com quem eu havia treinado e convivido intensamente.
Como Operador de Forças Especiais, qualificado Mestre de Salto Livre Militar e também em Salto Operacional a Grande Altitude (SOGA), eu sempre valorizei profundamente as situações que revelam o verdadeiro caráter da liderança. Embora eu não tenha estado presente naquele avião no salto daquele dia trágico, minhas impressões sobre o episódio são fruto da minha própria experiência acumulada em atividades aeroterrestres de alto risco, somada às conversas detalhadas que tive pessoalmente com vários dos saltadores que viveram o momento, principalmente com o atual coronel Forças Especiais José Placídio Matias dos Santos. Cruzei esses relatos com o artigo escrito pelo então capitão Jonas de Oliveira Santos Filho e com o conhecimento técnico profundo dos manuais de instrução que regem nossa atividade. O que emerge é uma narrativa poderosa que transcende o acidente em si e se transforma em uma das melhores ilustrações práticas de liderança adaptativa no paraquedismo militar que já vi.

A preparação técnica que antecedeu o incidente foi meticulosa, como sempre deve ser em nossa atividade. Todo salto livre militar começa muito antes da decolagem. O briefing particular com os paraquedistas e o briefing combinado com a tripulação da Força Aérea Brasileira foram realizados com rigor absoluto. Discutiram-se localização da zona de lançamento, ordem de saída, procedimentos de emergência, conduta a bordo, material a ser utilizado e horários precisos. A equipagem foi feita inicialmente com o paraquedas MT 1-XX operacional, equipamento padrão da Brigada de Infantaria Pára-quedista na época. A inspeção de pessoal seguiu o método estabelecido: de cima para baixo e da esquerda para a direita, primeiro a parte frontal e depois a dorsal. Verificava-se uniforme (gandola para dentro da calça, gola fechada, mangas abaixadas), touca ou capacete com jugular em boas condições, sistema de desconexão de três anéis montado corretamente, tirantes de adaptação do peito e das pernas sem torções, punhos de desconexão livres para empunhadura e altímetro calibrado. Cada detalhe era verificado com calma, porque a experiência nos ensina que a negligência custa caro.
Após um primeiro lançamento com paraquedas MT 1-XX operacional, onde o cabo Wincler passou mal devido ao enjoo causado pelo almoço recente, a equipe trocou para o Student Vector no aeródromo de Jacarepaguá. Realizaram novo ensaio das ações, ajustaram alturas de abertura e embarcaram novamente. A aeronave subiu até 12.000 pés (cerca de 3.600 metros). O então tenente-coronel Paulo Roberto, do 27ºBatalhão de Infantaria Paraquedista, atuava como Mestre de Salto Livre da primeira equipe. Os comandos foram emitidos com precisão: colocar cintos de segurança, aliviar toucas e capacetes, luz vermelha, nível, inspeções mútuas entre Mestre e auxiliar. Tudo seguia o procedimento padrão até o instante em que tudo mudou.
Ao comando de “Em posição” e “Pode ir”, o cabo Wincler, primeiro da equipe, posicionou-se de costas para a porta. Por alguma razão, o pino de liberação foi acionado prematuramente. O piloto chute saiu da bolsa, causando a abertura imediata do paraquedas reserva que o extraiu violentamente da aeronave. Ele atingiu o estabilizador horizontal esquerdo, que foi arrancado com o impacto. A C-95 perdeu completamente a sustentação e entrou em queda de dorso, nariz apontado para o solo, girando em espiral.

Dentro da aeronave que girava descontrolada, o caos era absoluto. Os paraquedistas chocavam-se uns contra os outros e contra a fuselagem. A porta, agora em cima, exigia que os saltadores eventualmente engatinhassem no teto, segurando-se nos bancos para chegar até a saída. No meio daquele turbilhão, o capitão Placídio manteve a presença de espírito e emitiu o comando claro de abandonar a aeronave. Ele permaneceu junto à porta, ajudando fisicamente cada um a sair e orientando para que se afastassem imediatamente da aeronave durante a queda, pois as hélices ainda giravam. O tenente Jonas, que estava no fundo da aeronave, também passou a orientar os companheiros, impedindo que se chocassem contra a fuselagem. O capitão Placídio só abandonou o avião aos 7.000 pés, quando recebeu o alerta de um saltador “-VAMOS EMBORA CAPITÃO!”, após garantir que toda a equipe de paraquedistas tivesse saído em segurança.
Uma vez fora da aeronave, os paraquedistas continuaram caindo ao lado dela e procuraram se afastar para evitar acidentes com os motores ainda funcionando. Os paraquedas foram comandados na altitude prevista de 4.000 pés. A equipe procurou aterrar próximo ao local da queda do avião, que ocorreu no quintal de uma casa. Infelizmente, não houve sobreviventes na tripulação da Força Aérea nem no cabo Wincler. Foi um dia de perda irreparável, mas também de demonstração extraordinária de profissionalismo e liderança adaptativa no paraquedismo militar.
A liderança adaptativa no paraquedismo militar em ação: o modelo demonstrado pelo capitão Placídio
Embora as pessoas frequentemente pensem que a liderança adaptativa seja centralizada no líder, na verdade ela é mais centrada nos liderados. Ela se concentra principalmente em como os líderes ajudam os outros a fazerem o trabalho que precisa ser feito para se adaptarem aos desafios que enfrentam. No caso do capitão Placídio, essa abordagem foi demonstrada de forma magistral. A liderança adaptativa no paraquedismo militar é a simbiose entre o desafio situacional, o comportamento do líder e a adaptação do trabalho a ser realizado.
Existem três tipos de desafios situacionais. Desafios técnicos são aqueles claramente definidos, com soluções conhecidas que podem ser resolvidas pela autoridade ou expertise do líder. Um exemplo simples seria o Mestre de Salto Livre identificar um defeito no equipamento e providenciar a troca imediata do paraquedas. Desafios técnico-adaptativos são claramente definidos, mas não possuem soluções diretas e simples dentro do sistema existente; a responsabilidade é compartilhada entre líder e equipe. Já os desafios adaptativos, que estavam no centro daquele dia, são problemas que não são claros nem fáceis de identificar. Eles não podem ser resolvidos apenas pela autoridade ou pelos métodos tradicionais. Exigem que o líder encoraje a equipe a agir, muitas vezes promovendo mudanças em prioridades, crenças, papéis e valores.
Naquele momento, a situação era puramente adaptativa. A equipe nunca havia treinado para um avião virar de cabeça para baixo e cair em espiral com a porta invertida. A confusão inicial foi grande. Manter a calma dentro de uma aeronave girando bruscamente era algo inédito. O capitão Placídio não tentou resolver tudo como pôde. Ele agiu para mobilizar a equipe para enfrentar o desafio coletivo.
Os comportamentos de um líder adaptativo não seguem uma ordem rígida; muitos se sobrepõem e devem ser demonstrados simultaneamente. O capitão Placídio exemplificou os seis comportamentos principais de forma excepcional.
Primeiro, o “olhar da varanda”: uma metáfora que significa distanciar-se mentalmente do problema para ganhar perspectiva. Enquanto o avião girava e os paraquedistas se chocavam, ele conseguiu manter uma visão mais ampla da situação, compreendendo que a aeronave estava em queda descontrolada e que a única solução era o abandono imediato e ordenado.
Segundo, identificar o desafio adaptativo. Ele rapidamente entendeu que não se tratava apenas de um problema técnico de abertura de paraquedas, mas de uma emergência inédita que exigia mudança imediata de comportamento de toda a equipe.
Terceiro, controle do estresse. A incerteza gerou angústia natural nos saltadores. O papel dele foi fundamental para regular o próprio estresse e ajudar os companheiros a gerenciarem o deles, impedindo que o pânico tomasse conta.
Quarto, manter o foco (manter a atenção disciplinada). Em situações inéditas, as pessoas tendem a congelar ou resistir à mudança. O capitão Placídio manteve todos concentrados na ação essencial: chegar até a porta e abandonar a aeronave, orientando-os a se afastarem das hélices ainda girando.
Quinto, devolver o trabalho às pessoas. Em vez de tentar controlar cada movimento, ele permitiu que cada saltador fizesse o que precisava ser feito. Deu espaço para que o tenente Jonas e outros também orientassem os companheiros, devolvendo a responsabilidade para a equipe executar o abandono.
Sexto, proteger as vozes da liderança de baixo. Ele esteve aberto às iniciativas dos paraquedistas de níveis inferiores. O tenente Jonas, do fundo da aeronave, conseguiu orientar os demais e teve sua voz protegida e valorizada. Essa atitude permitiu que todos se sentissem mais independentes e responsáveis por suas ações.
O trabalho adaptativo realizado pela equipe ocorreu dentro de um ambiente caótico que buscava segurança de forma improvisada. Os paraquedistas seguiram os comandos e agiram como haviam sido treinados de forma segura o suficiente para enfrentar as mudanças rápidas de papéis e prioridades. O resultado foi que todos os dez saltadores (exceto o cabo Wincler, já ejetado) conseguiram abandonar a aeronave com sucesso, comandar os paraquedas na altitude correta e aterrar em segurança.
Ao longo desses anos, eu conversei com os coronéis Placídio, Jonas e Paulo Roberto, além do Cabo fortes e outros sobre aqueles momentos. Eles descreveram o peso emocional de sobreviver enquanto companheiros não voltavam. Essa é a dimensão humana por trás dos fatos técnicos: o paraquedismo militar não é apenas técnica de queda livre, posição box, controle de velocidade vertical ou procedimentos de lançamento. É fraternidade, confiança mútua e saber que, em um momento de crise, alguém manterá a serenidade para que os outros possam viver. O capitão Placídio e o tenente Jonas encarnaram esse espírito de forma exemplar.
Na minha experiência aeroterrestre militar, participando de atividades em situações variadas como: Salto Operacional a Grande Altitude (SOGA) , salto em zona de lançamento aquática noturna na Amazônia, salto livre operacional (SLOp) em zona de lançamento restrita na selva, infiltração de velame aberto na Amazônia, dentre outras, enfrentei situações complexas onde a liderança adaptativa no paraquedismo militar fez toda a diferença. Aprendi que o líder não resolve o problema no lugar da equipe; ele cria as condições para que a equipe resolva. O capitão Placídio fez exatamente isso: regulou o desconforto emocional, protegeu as vozes que precisavam ser ouvidas e devolveu a responsabilidade para cada saltador executar o que sabia fazer.
Vinte e oito anos depois do incidente, os procedimentos foram aprimorados com novas tecnologias de rastreamento e equipamentos mais confiáveis, mas os princípios permanecem os mesmos. A preparação meticulosa, a inspeção rigorosa, a capacidade de olhar da varanda em meio ao caos e a habilidade de devolver o trabalho às pessoas continuam sendo os pilares da nossa segurança operacional.
Escrever sobre esse episódio não é apenas relembrar um acidente trágico. É homenagear os que se foram, celebrar os que sobreviveram e reafirmar o compromisso de todos nós, paraquedistas militares, com a excelência e com a liderança adaptativa no paraquedismo militar. Que essa história inspire as novas gerações a valorizarem o treinamento, a disciplina e, principalmente, a liderança que coloca o próximo em primeiro lugar, independentemente das circunstâncias.
Para expandir ainda mais o entendimento sobre a liderança adaptativa no paraquedismo militar, vale refletir sobre como ela se aplica em outros contextos das Forças Especiais. Em operações na Amazônia, nas favelas cariocas ou no Haiti por exemplo, líderes frequentemente enfrentam desafios adaptativos semelhantes: condições climáticas imprevisíveis, terrenos desconhecidos e a necessidade de mudar planos em tempo real sem perder o foco na missão. O capitão Placídio demonstrou que, mesmo em uma aeronave invertida, o líder pode transformar pânico em ação coordenada. Isso exige não apenas técnica, mas inteligência emocional profunda.
Penso também nas inspeções de equipamento que mencionei antes. Cada verificação (do sistema de três anéis aos tirantes sem torções) não é mera formalidade; é o fundamento que permite ao líder confiar que, quando o caos chegar, a equipe terá as ferramentas para sobreviver. No curso de Mestre de Salto Livre que fiz com Placídio em 1996, vimos isso na prática: saltos noturnos, simulações de emergências, debriefings rigorosos que reforçavam a importância de cada comportamento adaptativo. Ali, em campo, confirmei em loco a vocação aeroterrestre dele: um líder nato, calmo sob pressão, com visão ampla e capacidade de inspirar confiança em situações complexas.

Com o tenente Jonas, quando tive a honra de ser seu comandante, em 1997, na Companhia de Ações de Comandos, observei sua capacidade de iniciativa em treinamentos diários. Ele já se destacava por antecipar problemas e apoiar os praças mais novos, exatamente como fez dentro da aeronave girando, orientando do fundo do avião. Sua conduta foi fundamental e exemplifica como a liderança adaptativa no paraquedismo militar surge em todos os níveis hierárquicos quando o líder principal a protege.

A tradição das Forças Especiais brasileiras, desde 1957, é marcada por esse profissionalismo. Seja em ações contra narco-guerrilheiros na Amazônia ou em adestramentos rotineiros como aquele, o lema “QUALQUER MISSÃO, EM QUALQUER LUGAR, A QUALQUER HORA, DE QUALQUER MANEIRA” só se concretiza com líderes que sabem adaptar-se. O incidente com a C-95 Bandeirante reforça que o treinamento intenso cria reflexos condicionados essenciais: rapidez de raciocínio, procedimento automático no comandamento do paraquedas e equilíbrio emocional.
Hoje, em 2026, com avanços tecnológicos, continuamos a aplicar essas lições. Equipamentos mais modernos, sistemas de comunicação aprimorados e simulações mais realistas fortalecem a preparação, mas o coração da liderança adaptativa no paraquedismo militar permanece humano: confiança mútua, serenidade no caos e compromisso com o companheiro ao lado.
Em resumo, o episódio de 8 de maio de 1998 ilustra como a liderança adaptativa no paraquedismo militar pode transformar uma emergência inédita em uma operação de salvamento coletiva. O capitão Placídio, com seu “olhar da varanda”, controle de estresse e capacidade de devolver o trabalho à equipe, salvou vidas. O tenente Jonas, com sua iniciativa protegida, complementou essa liderança. Juntos, eles mostraram que, em nosso mundo de alto risco, a verdadeira liderança é aquela que empodera os outros.
Que essa história continue inspirando todos que vestem a farda e saltam em defesa da Pátria.
Este artigo é dedicado, com profunda reverência e gratidão eterna, aos quatro militares que perderam a vida no cumprimento do dever naquele 8 de maio de 1998: o 1º Tenente Aviador Marcos Alexandre Cavaliere, piloto comandante da Força Aérea Brasileira, responsável pela condução da aeronave com dedicação exemplar; o 1º Tenente Luiz Carlos Leite Machado, copiloto, que dividiu os riscos e a cabine com competência e espírito de equipe; o 3º Sargento Alexandre Silva Pinheiro de Souza, mecânico de voo, os olhos e ouvidos da aeronave em pleno voo, indispensável para o sucesso de qualquer missão; e o Cabo Sebastião Wincler, que tive o privilégio de ter sido seu instrutor no Curso de Formação de Cabo Comandos, paraquedista do 1º Batalhão de Forças Especiais, um companheiro corajoso pronto para o salto quando o destino lhe roubou a chance de tocar o solo novamente. Eles representam o sacrifício silencioso que sustenta a defesa e a soberania do Brasil. O paraquedismo militar e as operações das Forças Especiais são atividades profissionais de alto risco, onde cada decolagem carrega perigos reais e permanentes. Honrar sua memória significa reconhecer que, em nosso ofício, a preparação, a disciplina e a liderança salvam vidas, mas nem sempre conseguem evitar o imprevisível.
Fernando G. Montenegro
Veterano das Forças Especiais
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Uma referencia em nossa história! Precisamos trazer mais nobres fatos e acontecimentos que abrilhantam nosso passado de luta e glória!!!!!
Coronel Montenegro, parabéns pelo excelente artigo. Muito bem embasado tecnicamente. É de grande valia e relevância, que episódios que aconteceram em nossos adestramentos e missões (dentro do possível) respeitando a classificação dos assuntos. Sejam estudados e debatidos, para que nossas TTPs e doutrinas, estejam sempre em constante evolução. As atividades na comunidade de Operações Especiais, sempre estarão cercadas de elevado nível de risco, faz parte do nosso sacerdócio. Incansavelmente, tomamos todos os cuidados e cumprimos todos os procedimentos para mitigar os incidentes e acidentes. Infelizmente, eles fazem parte desse ramo de atividade e mesmo com todos os procedimentos, continuarão ocorrendo. Porque somos humanos e os equipamentos e as maquinas, falham. O mais importante é que esses que pagaram um alto…
Montenegro, parabéns pelo excelente artigo, haja vista que podemos obter a partir desse episódio, parâmetros de aprendizado sobre liderança que podemos aplicar em qualquer área de nossas vidas.👏
Montenegro, parabéns pelo relato.
Na época eu me encontrava na Amazônia (Manaus) e tomei conhecimento do ocorrido.
Força! Precede!
🔥🇧🇷
Realmente o acidente não foi pior devido aos aspectos relacionados à liderança adaptativa, abordados com maestria pelo Cel Montenegro. Deus acolha aqueles que pereceram no cumprimento da missão!