;
top of page

O Pioneirismo dos Operadores de Forças Especiais na Forja dos Guerreiros do Sertão

  • Foto do escritor: Fernando G. Montenegro
    Fernando G. Montenegro
  • há 12 horas
  • 8 min de leitura

Imagem de militares no sertão da Caatinga
A influência das Forças Especiais na Forja dos Guerreiros do Sertão

Hoje, 28 de abril, celebramos o Dia Nacional da Caatinga. Este é o único bioma exclusivamente brasileiro, um ambiente que não perdoa a fraqueza humana e exige uma resiliência brutal. Mais do que uma paisagem marcada pela resistência da flora e da fauna, o nosso sertão é o verdadeiro teatro de operações onde o combatente é testado até o seu limite físico, moral e psicológico. Como historiador militar e veterano das Forças Especiais, sinto o dever incontornável de aproveitar esta data para prestar uma reverência histórica e técnica às tropas policiais e militares especializadas em operar neste ambiente inóspito.

A manutenção da ordem pública e a preservação da soberania do Estado sobre o seu território exigem a capacidade de projetar poder em ambientes onde a própria natureza se apresenta como o primeiro e mais implacável adversário. A natureza humana é falível, marcada por ambições e conflitos, e sobrevivem apenas aqueles fundamentados em sólida disciplina, preparo técnico inquestionável e uma vontade inquebrantável de vencer as intempéries e o crime. O sertão não é para os fracos. É a casa dos audazes, o berço das Operações Especializadas na Caatinga.


O Sangue das Volantes e o Antigo Cangaço

Para compreendermos a magnitude e a necessidade das atuais Operações Especializadas na Caatinga, precisamos olhar para o passado e entender as raízes do combate no semiárido. Nas décadas de 1920 e 1930, o interior do Nordeste brasileiro foi assolado pelo fenômeno do cangaço. Grupos armados nômades, liderados por figuras históricas como Lampião, aterrorizavam cidades, saqueavam fazendas e desafiavam abertamente a autoridade estatal. O Estado, sob a ótica do realismo clássico, não podia permitir a existência de um poder paralelo que ameaçasse o monopólio do uso da força.

Para combater esses grupos altamente adaptados ao bioma, as polícias estaduais criaram as famosas "volantes". Estas eram frações de tropas policiais nômades, dotadas de alta mobilidade, que passavam meses embrenhadas na caatinga caçando os cangaceiros de forma empírica. Os soldados das volantes aprenderam com os vaqueiros locais a arte de sobreviver na seca. Adotaram os chapéus de couro para proteger o rosto dos espinhos do mandacaru e da macambira, desenvolveram técnicas rudimentares de rastreamento e entenderam que a velocidade e a surpresa eram as suas maiores armas. O sangue derramado pelas volantes foi o adubo que fez germinar a doutrina de patrulhamento rural no Nordeste, uma herança de bravura que as polícias militares carregam até os dias de hoje no enfrentamento ao chamado "novo cangaço".


As Raízes Militares e o Pioneirismo do Exército Brasileiro

Apesar dessa rica herança histórica das polícias, a estruturação técnica, metodológica e doutrinária das Operações Especializadas na Caatinga em sua forma moderna não ocorreu inicialmente no âmbito da segurança pública. Tudo começou com a visão geopolítica, estratégica e acadêmica de operadores de Forças Especiais do Exército Brasileiro.

O pioneirismo absoluto desta jornada de sistematização deve ser creditado à iniciativa brilhante e à proposta ousada do então Coronel de Forças Especiais Carlos Alberto Duarte do Prado. No ano de 1977, quando comandava o tradicional 72º Batalhão de Infantaria Motorizado (72º BIMtz) na cidade de Petrolina, o Coronel Prado vislumbrou a necessidade premente de adaptar a tática militar de elite ao rigor do semiárido. Naquela oportunidade, o Curso de Ações de Comandos funcionava exclusivamente a partir de Manaus, no então Centro de Operações na Selva e Ações de Comandos/COSAC.

Com uma visão de defesa nacional profunda, o Coronel Prado propôs que o curso passasse a realizar um adestramento específico na caatinga. Ele ofereceu todo o suporte logístico do seu batalhão, a vasta e desafiadora área de instrução da região e o conhecimento inestimável de especialistas locais, os verdadeiros mateiros do sertão. Este treinamento intenso e altamente especializado permaneceu restrito exclusivamente ao Curso de Ações de Comandos até o ano de 1985. Foi um período de incubação vital, uma forja acesa que começou a moldar os primeiros operadores capazes de suportar o calor lancinante, a escassez crônica de água e o terreno recoberto por espinhos cortantes.


A Expansão do Conhecimento e a Ação Indireta de Forças Especiais

A doutrina, contudo, não poderia ficar confinada apenas aos operadores de Comandos. O conhecimento precisava ser expandido para fortalecer a dissuasão nacional como um todo. A virada de chave ocorreu quando os Majores de Forças Especiais Álvaro de Souza Pinheiro e Luis Carlos Gomes Mattos, após concluírem o Curso de Comando e Estado Maior do Exército (ECEME), foram classificados na 7ªRegião Militar/Divisão de Exército, e propuseram ao General-de-Divisão HARRY ALBERTO SCHNARNDORF, Comandante da 7ª RM / 7ª DE, veio ao 72º BI Mtz, a elaboração de uma doutrina inicial para a formação de um combatente especializado e apto a operar no ambiente de Caatinga. Por serem ambos Comandos,  começaram a conduzir os primeiros estágios de área no sertão a partir de 23 de fevereiro de 1985.

Neste ponto exato, presenciamos a essência de um dos pilares mais fundamentais do combate não convencional: a Ação Indireta de Forças Especiais. Este conceito consiste justamente no efeito multiplicador de forças. O operador de Forças Especiais não atua apenas na ponta da lança em missões diretas; ele atua como um difusor de doutrina, ensinando, assessorando e treinando outras tropas. Através dessa Ação Indireta, os Majores Álvaro e Mattos difundiram táticas, técnicas, procedimentos precisos e, mais importante do que tudo, incutiram a mentalidade de altíssimo profissionalismo e resiliência em tropas convencionais.

A semente institucional para o que viria a ser o Centro de Instrução de Operações na Caatinga foi lançada na década de 1980. O primeiro Estágio de Operações na Caatinga difundiu as bases metodológicas de patrulha, emboscada, rastreamento e sobrevivência que já vinham sendo praticadas nos Cursos de Ações de Comandos desde 1977. O Exército consolidou as instruções de obtenção de água e fogo, orientação por bússola e entendimento profundo dos efeitos fisiológicos do calor extremo sobre o corpo humano, criando um celeiro de conhecimento tático inigualável.


A Evolução das Forças Policiais e as Operações Especiais na Caatinga

O surgimento de modalidades criminosas de altíssima complexidade no interior do Nordeste, caracterizadas por quadrilhas fortemente armadas que atacam instituições financeiras e dominam pequenas cidades, exigiu do Estado brasileiro uma resposta contundente e imediata. O monopólio da força precisa ser exercido com técnica, legitimidade e superioridade tática. Para proteger a sociedade e restabelecer a ordem, as polícias militares nordestinas precisaram evoluir, buscando o conhecimento onde ele já havia sido testado e lapidado.

Aproveitando o efeito multiplicador da Ação Indireta de Forças Especiais gerada no Exército, oficiais e praças das corporações estaduais foram enviados a Petrolina para absorver a doutrina militar, técnicas, táticas e procedimentos visando aperfeiçoamento e adaptação de operações policiais a esse bioma. Essa transferência de conhecimento técnico foi o alicerce para a criação de tropas policiais especializadas.

Em Pernambuco, o pioneirismo civil tomou forma a partir de 1997, consolidando-se posteriormente na famosa Companhia Independente de Operações e Sobrevivência na Área de Caatinga, o atual Batalhão Especializado de Policiamento do Interior. Na Bahia, a vasta extensão territorial do semiárido exigia mobilidade e poder de fogo, resultando na criação da Companhia de Polícia de Ações em Caatinga em 2001, que hoje evoluiu para as temidas Companhias Independentes de Policiamento Especializado. Outros estados seguiram o caminho imperativo da ordem institucional: Sergipe com a sua Companhia Independente, Alagoas com a heroica Companhia sediada na histórica região de Piranhas (terra do cangaço), e o Ceará com o altíssimo poder de choque e mobilidade do seu Comando Tático Rural.


A Minha Jornada e a Formação da Elite na Paraíba

Além da minha formação de Comandos, com adestramentos específicos no bioma de Caatinga, tenho a honra singular de estar participado ativamente da estruturação dessa doutrina no estado da Paraíba até 2026. A segurança pública e a defesa da sociedade exigem ações concretas, fundadas na prudência e na visão estratégica de longo prazo. A primeira atividade de especialização profunda no estado ocorreu em 2002, quando o governo decidiu conduzir o primeiro Curso de Operações e Sobrevivência em Área de Caatinga. O curso foi idealizado pelo então Tenente Saleme, que, após convencer o Dr Francisco Glauberto Bezerra, então Secretário de Segurança do estado da Paraíba,  me fez o convite extremamente honroso para ser o Coordenador daquela formação pioneira. Após refazer os planejamentos, conseguir apoio logístico e de pessoal no 15ºBIMtz, na Academia de Polícia da Polícia Civil do Estado da Paraíba e na Prefeitura de Mãe d’Água, as atividades de instrução ocorreram. Forjamos os primeiros guerreiros de Caatinga paraibanos ali, no suor e na poeira do sertão.

Infelizmente, descontinuidades administrativas e divergências políticas paralisaram o projeto por alguns anos, e apenas em 2011 o estado voltou a realizar novas edições do curso. No entanto, a semente da excelência estava irremediavelmente plantada. O amadurecimento dessa tropa foi inevitável, fruto da dedicação de homens abnegados. Tive o privilégio imenso de retornar e coordenar, no ano de 2022, o Primeiro Curso de Ações Policiais de Comandos da Paraíba.

Atualmente, o grupamento de elite da Paraíba evoluiu a sua nomenclatura para Grupamento Especial de Operações no Sertão e Ações de Comandos (GEOSAC), exigindo hoje o rigorosíssimo Curso de Ações Policiais de Comandos como pré-requisito obrigatório para integrar a unidade. Esta atualização institucional não é apenas semântica. Ela reflete a elevação absoluta da tropa ao mais alto espectro do combate não convencional policial, coroando o esforço de décadas de aprimoramento contínuo. Em Portugal, durante 2024 e 2025, conseguimos proporcionar atividades de intercâmbio doutrinário com o Regimento de Comandos de Portugal e com o Grupamento de Intervenção de Operações Especiais da Guarda Nacional Republicana.


O Rigor Essencial da Seleção

A formação de um operador para este bioma é um processo metódico de desconstrução e reconstrução da resistência humana. Avaliando os editais modernos e os manuais de instrução destas tropas, fica evidente que o nível de exigência seleciona apenas aqueles com vocação real.

O ingresso nos cursos de especialização exige testes de aptidão física severos. O candidato é submetido a corridas de fundo, natação utilitária, flutuação e arrasto de companheiros simulando feridos em combate. O ápice da triagem costuma ser uma marcha rústica de vários quilômetros, com uniforme completo, mochila pesada e armamento longo, a ser concluída em tempo restrito. Este filtro garante que o corpo suporte a carga, mas é a mente que será verdadeiramente forjada nas semanas subsequentes de privação hídrica e alimentar controlada.


A Mística, a Oração e a Simbologia do Guerreiro do Sol

O que mantém um homem de pé quando a água acaba, o sol castiga a pele a mais de quarenta graus e o corpo implora por descanso? A resposta está na mística inabalável que envolve as Operações Especiais na Caatinga. Mais do que uma doutrina militar, formou-se uma verdadeira irmandade forjada na dor e no sacrifício consciente.

A simbologia dessas tropas é rica e reverencia o homem do campo, o vaqueiro nordestino, que há séculos domina aquele ambiente. O uso do chapéu de couro, seja no formato de meia-lua ou aba larga, não é apenas um equipamento de proteção contra os espinhos; é uma coroa de rusticidade. O uniforme reforçado com couro, o gibão moderno, representa a carapaça que protege o guerreiro das lâminas naturais da vegetação xenófila.

O ponto alto dessa mística espiritualizada é a "Oração do Guerreiro de Caatinga". Trata-se de um clamor profundo, uma invocação que não pede facilidades, mas sim a capacidade de suportar o insuportável. Os versos pedem a Deus a resistência do mandacaru, a força para suportar a sede e a coragem para combater os inimigos da lei e da ordem. Quando um turno de alunos ou uma patrulha entoa essa oração antes de entrar na área de operações, a vibração transcende o plano físico. É o compromisso solene de que a missão será cumprida, independentemente do custo pessoal.

Sob a ótica do realismo nas relações institucionais e sociais, a existência de unidades de elite tão preparadas e com tamanha coesão moral atua como o principal fator de garantia da civilização contra a barbárie. Quadrilhas que tentam estabelecer santuários no interior do Brasil esbarram em uma muralha intransponível de homens armados com fuzis e, acima de tudo, armados com a coragem de quem domina o próprio terreno.

O comandante de uma fração na caatinga não lidera por meio de discursos vazios de gabinete. Ele lidera pelo exemplo estoico, pela capacidade de tomar decisões acertadas sob extrema fadiga, e pela garantia inegociável de que a lei será imposta, preservando a segurança da sociedade civil que clama por ordem, justiça e paz.

As tropas de caatinga representam o que há de mais puro no conceito de tradicionalismo, respeito à hierarquia e sentimento de dever. Que neste Dia Nacional da Caatinga, possamos reverenciar cada gota de suor derramada nas áreas de instrução e nos combates reais espalhados pelo nosso grandioso Nordeste. A ordem nunca prevalece por acaso ou inércia. Ela é construída e mantida diariamente pela vigília de homens valorosos. A todos os Guerreiros do Sol, o meu mais profundo respeito e a minha vibrante continência.


Fernando G. Montenegro

Veterano do Forças Especiais

25 comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
Hugo Christiani
há 6 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Excelente texto Cmt!

Curtir

General Girão Monteiro
há 8 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Preservar a memória é valorizar a história e fortalecer um povo.

Curtir

Denise K.
há 9 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Excelente artigo, unindo o passado e a evolução técnica. Do jeito que as coisas vão, vão ter que usar polícia e exército no Nordeste.

Curtir

Convidado:
há 9 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

O Geosac da PMPB é a mais preparada Força Especial e Ações de Comando em Área da Caatinga do Brasil! Orgulho de fazer parte de uma instituição quem dispõe de um grupamento de tamanho respeito e dignidade.. parabéns ao Cmdo do Comando de Operações Especiais e Comandante do Geosac pelo brilhante trabalho!!!!

Curtir

Convidado:
há 10 horas

Servi durante 8 anos no 72 BI Mtz e posso falar com propriedade sobre esse tema de tão relevância para as operações militares. Fui instrutor no período de 95 a 2001 e em 1997 tive o privilégio de participar na formação dos primeiros combatentes de caatinga da PMPE na época CIOSAC.

Curtir
bottom of page