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A Tática Silenciosa: Operações Psicológicas do Crime Organizado na Pacificação

  • Foto do escritor: Fernando G. Montenegro
    Fernando G. Montenegro
  • 21 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura
Imagem que representa o cenário de guerra híbrida urbana, mostrando uma patrulha militar em um beco de favela sob o olhar de grafites de facção e luzes de alerta, ilustrando as Operações Psicológicas do Crime Organizado contra as forças de pacificação.

Na minha visão, as dinâmicas de conflito evoluíram significativamente, e o enfrentamento de grupos de crime organizado (ORCRIM) durante operações de pacificação exige uma compreensão aprofundada de suas táticas. Um estudo sobre a Pacificação dos Complexos de Favelas do Alemão e da Penha revelou que, apesar de não possuírem poder bélico suficiente para enfrentar o Exército Brasileiro, os integrantes do crime organizado persistiram em ações hostis, concentrando seus esforços principalmente no campo das Operações Psicológicas do Crime Organizado. Isso ocorreu mesmo sem uma estrutura formal dedicada a esse vetor.


Raízes e Evolução da Guerra Irregular

As técnicas de guerra irregular empregadas hoje pelo crime organizado no Brasil têm raízes históricas. Elas foram assimiladas por revolucionários comunistas brasileiros na década de 60, em países como Cuba, China e Albânia, além de outros da Cortina de Ferro. Posteriormente, o guerrilheiro Carlos Marighela sintetizou esses conhecimentos no "Mini Manual do Guerrilheiro Urbano" (1969).

O marco da difusão desses ensinamentos se deu no início da década de 70, com a mistura de integrantes da luta armada e criminosos comuns no Presídio da Ilha Grande. Dessa simbiose, nasceu o Comando Vermelho (CV), a primeira facção de crime organizado no Brasil, que hoje estabelece conexões internacionais com segmentos do narcoterrorismo, como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).


O Cérebro Humano como Alvo: As Operações Psicológicas do Crime Organizado

Durante a pacificação, as ações psicológicas foram observadas e direcionadas a diversos públicos-alvo: às tropas do Exército, aos próprios criminosos, à população local e à opinião pública. Para isso, o ORCRIM desenvolveu e executou propagandas branca, cinza e negra.


1. Ações de Propaganda e Imagem

O Comando Vermelho utiliza estratégias visuais e digitais para manipular a percepção e intimidar:

  • Comunicação Visual: As pichações antigas foram suprimidas pela ação da tropa, mas novas gravações e pinturas surgiram em outros locais, enaltecendo a facção (Comando Vermelho) e seus líderes fundadores (Rogério Lengruber) e ironizando a ação do Exército. Normalmente, isso ocorria nos intervalos de ronda das patrulhas. Em situações de maior tensão, surgiam rapidamente faixas e cartazes já preparados previamente, dando a impressão que as turbas teriam sido planejadas para aumentar o efeito e a visibilidade dos materiais.

  • Mídia e Produção de Conteúdo: O CV filma suas atuações por ocasião dos embates, edita os vídeos mostrando as forças legalistas sendo alvejadas em associação com imagens depreciativas da Polícia ou Forças Armadas e insatisfações da população com a exclusão social das favelas. Esses vídeos são acompanhados de legendas e músicas que fazem apologia ao Crime Organizado e são postados no Youtube e outros sites da Internet.

  • Música e Degradação Moral: Existem estúdios rudimentares que produzem músicas de péssima qualidade e linguagem extremamente chula, visando apologia ao sexo explícito, ao crime orga

    nizado e depreciando a Polícia ou o Exército. Essas músicas são muito populares nas favelas e são usadas para promover a degradação moral da comunidade e provocar as forças legalistas. A dificuldade em reprimir essa ação reside na complexidade de identificar a origem do som dentro do labirinto de becos e vielas.


2. Táticas de Desgaste e Coerção

As ações do Comando Vermelho visam desestabilizar a presença militar e manter o controle interno:

  • Medo e Lei do Silêncio: A manutenção da "lei do silêncio" na comunidade é imposta através do terror. Os colaboradores das Forças Armadas tinham que ser muito discretos sob o risco de serem “justiçados” pelos criminosos. Os traficantes “ficha-limpa” permaneciam na área promovendo atividades ilícitas de pequeno volume, direcionadas principalmente ao consumo interno. Criminosos também se valem da difusão de boatos ameaçando a tropa através da comunidade ou simulando conversas no rádio, sabendo que estão sendo monitorados.

  • Turbas e Desobediência: A quantidade significativa de pessoas que vive e se beneficia do tráfico de drogas (vigilantes, vendedores, seguranças, transportadores, dentre outros) era usada sistematicamente para provocar turbas e desgastes na tropa, promovendo brigas, desobediência e resistência ao acatamento de ordens.

  • Exploração da Mídia: Normalmente, mulheres e crianças simpatizantes do tráfico formavam uma barreira protegendo os marginais da tropa, agredindo com palavras e arremessando objetos. Essa situação era extremamente delicada, pois quase sempre havia um elemento preparado para filmar as ações da tropa e explorar as imagens na mídia. Em várias oportunidades, parecia que os jornalistas já estariam por perto, alertados de que haveria algum enfrentamento, e após a chegada deles, as turbas eram formadas e as hostilidades iniciavam.


O Fator Legal e a Resiliência Militar

A maior dificuldade para uma repressão mais eficaz a essas ações das forças adversas foi a falta de liberdade legal da tropa, conforme a regra de engajamento. O Exército foi empregado numa situação de normalidade constitucional. Isso significava que todos os moradores das comunidades estariam em pleno gozo de seus direitos e garantias individuais. A tropa não possuía autorização para entrar nas casas/barracos ou recolher veículos sem documentação (missão da polícia), devendo agir como se estivesse em Copacabana.

Este panorama causou um enorme desgaste à Força de Pacificação em todos os níveis. Contudo, os militares brasileiros demonstraram notável capacidade de adaptação a essas condicionantes e concluíram a missão com sucesso sem precedentes.


As Principais Ações de Guerra Híbrida do CV na Operação Arcanjo

O Comando Vermelho utilizou uma lista de ações em seu favor:

  • Criação de turbas e manifestações;

  • Resistência a cumprimento de ordem;

  • Coação da população e uso da lei do silêncio;

  • Desacatos;

  • Boa coordenação das comunicações (rádio, sinais convencionados, moto táxis como mensageiros);

  • Uso de líderes comunitários;

  • Pichações com ameaças;

  • Denúncias falsas contra a tropa;

  • Uso de olheiros (incluindo menores de idade);

  • Venda de drogas em pequenas quantidades (enquadrados como usuário);

  • Ações ilícitas praticadas de forma velada;

  • Uso da regra de engajamento da tropa em seu desfavor;

  • Política da não agressão e boa convivência aparente com a população;

  • Uso de menores, mulheres e elementos com ficha limpa em suas ações.


O Comando Vermelho e as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) mantiveram relações históricas de cooperação no narcotráfico. No entanto, o acordo de paz de 2016 na Colômbia resultou na desmobilização das FARC. Embora o Comando Vermelho possa buscar novas parcerias com grupos dissidentes ou outras organizações narcoterroristas globais, a menção direta à FARC como parceira unificada do passado é mais precisa que a menção a uma parceria atual com a organização como um todo.


Fernando G. Montenegro

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