Liderança Militar e a Crise de Identidade Estratégica
- Fernando G. Montenegro
- 16 de mai.
- 3 min de leitura

A essência do comando não reside no brilho das estrelas no ombro, mas na profundidade do compromisso com aqueles que são liderados. Como oficial veterano das Forças Especiais e integrante de uma terceira geração de militares do Exército, aprendi cedo que a autoridade é um empréstimo da nação, não uma posse pessoal. Hoje, observo com preocupação é a possibilidade de um cenário onde a confusão entre o projetos pessoais de poder e a servidão pública prejudicam a reputação das nossas instituições republicanas.
O Tripé da Atuação Estatal: Moralidade, Legitimidade e Legalidade
Para que qualquer ordem ou ação de um estado militar possua substância, ela deve obrigatoriamente se sustentar em um tripé inegociável: a moralidade, a legitimidade e a legalidade.
A legalidade, isolada de sua legitimidade perante o clamor popular, torna-se uma casca vazia. Na década de 1980, quando eu era cadete na Academia Militar das Agulhas Negras, fomos ensinados que as grandes decisões de comando devem carregar a validação da sociedade. Curiosamente, alguns daqueles que nos ministravam essas palestras e defendiam a legitimidade da revolução de 1964 com base no apelo popular, ocupavam o alto comando em 2022 e pareceram sofrer de uma amnésia seletiva ou mudaram de opiniao sobre esse princípio.
A Bolha do Poder
Um comandante é integralmente responsável por tudo o que sua tropa faz ou deixa de fazer. No entanto, quando um líder se desconecta da realidade e se isola em uma bolha de assessores cujos interesses são puramente a permanência perto do poder, a visão torna-se turva.
Essa desconexão gera consequências previsíveis e devastadoras:
Atritos Internos: A tropa se fragmenta quando percebe que o comando não luta pelos mesmos ideais que o soldado no terreno.
Queda de Desempenho: A motivação desaparece quando o mérito é substituído pela conveniência política.
Caos e Crise de Reputação: O Exército Brasileiro mergulhou na maior crise de imagem de sua história, um fato inquestionável que compromete a confiança da população.
Atualmente, em maio de 2026, observamos que a percepção de politização das promoções ao generalato continua a ser um ponto de intensa fricção social e institucional, alimentando a desconfiança sobre a neutralidade das Forças. Quando as multidões clamam por socorro e percebem um silêncio obsequioso daqueles que deveriam protegê-las ou passa a interpretar certas açoes como perfídia, a legitimidade da força é corroída.
O Pendor para a Função e a Humildade de Pedir Demissão
Existe uma diferença abismal entre ocupar um cargo e exercer a liderança. Em qualquer lugar do mundo, aqueles que não possuem pendor ou competência para uma atividade de interesse público precisam ter a grandeza de abrir mão de seus projetos pessoais. Em democracias consolidadas, o pedido de demissão não é visto como derrota, mas como uma questão de honra e preservação institucional.
Podemos citar exemplos históricos de responsabilidade que deveriam servir de reflexão:
O Escândalo Tailhook (1991): Diversos oficiais da Marinha americana renunciaram para proteger a imagem da instituição após falhas graves de conduta.
General David Petraeus (2012): Um dos generais mais condecorados dos Estados Unidos, pediu demissão da direção da agência central de inteligência ao entender que sua conduta pessoal comprometia a integridade do órgão.
No Brasil, infelizmente, o apego ao cargo e a disputa por prerrogativas superam a ética em todas estruturas do Estado. O resultado, nas forças Armadas com salários defasados e a crise de imagem institucional, é a perda de talentos: profissionais altamente qualificados, com 15 a 20 anos de serviço, estão abandonando o barco e buscando a iniciativa privada porque perderam a identificação com uma instituição que parece ter esquecido sua finalidade de servir à pátria.
Reflexão Final sobre o Dever de Servir
A carreira das armas exige desprendimento. Se o seu projeto pessoal se torna maior que o seu dever, ou você tem ambiçoes e ficar rico, você já não é mais um líder, mas um funcionário do próprio ego. A única saída honrosa para quem se vê incapaz de atender aos anseios da nação e manter a moralidade da tropa é pedir para sair.
O cenário geopolítico de 2026 exige mentes estratégicas resilientes e líderes que não temam a verdade em favor da conveniência. A reconstrução da nossa reputação como naçao passará, inevitavelmente, pela retomada da coragem moral e pelo expurgo daqueles que veem no na ocupaçao de gargos no governo, apenas uma escada para interesses particulares.
Precisamos questionar: quem realmente está se favorecendo com o perfil de profissionais que atingem o topo das carreiras de Estado hoje? O Brasil merece uma Liderança Militar que use a legalidade como como ferramenta para a justiça e a proteção do seu povo e seja percebida dessa forma.
Fernando G. Montenegro
Veterano das Forças Especiais
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