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Geopolítica Brasileira: O Legado dos Grandes Estrategistas e o Desafio da Nova Ordem Mundial

  • Foto do escritor: Fernando G. Montenegro
    Fernando G. Montenegro
  • 8 de jul.
  • 10 min de leitura

Ilustração conceitual de um mapa-múndi estilizado como um tabuleiro de xadrez em tons de cinza e azul, com peças de xadrez translúcidas posicionadas estrategicamente sobre os continentes, destacando a projeção de poder e a relevância da Geopolítica Brasileira no cenário internacional contemporâneo.

Se as fronteiras do seu mercado corporativo ou da sua instituição fossem desestabilizadas hoje por uma crise sistêmica, a sua tomada de decisão estaria amparada em dados geográficos ou na mera intuição? Compreender as forças invisíveis que moldam o espaço e o poder não é uma exclusividade de generais ou diplomatas, mas sim o alicerce essencial para que gestores e tomadores de decisão consigam mitigar riscos com precisão cirúrgica. Como estudioso de ciências militares e de relações internacionais, dediquei minha trajetória a decifrar como a alta estratégia territorial se traduz em vantagens competitivas reais e duradouras. Através dessa perspectiva analítica, este artigo busca descortinar as bases que norteiam a projeção de forças e a consolidação de uma soberania respeitada e estratégica no tabuleiro internacional.

Ao analisarmos a história da humanidade, a busca pelo poder, a soberania e o interesse nacional funcionaram de forma perene como os verdadeiros eixos de gravidade de todo o sistema global. Para que possamos compreender com clareza o panorama contemporâneo neste ano de 2026, precisamos obrigatoriamente revisitar os alicerces teóricos clássicos da geopolítica mundial e compreender como grandes pensadores e chefes militares moldaram a nossa percepção sobre a relação indissociável entre o espaço geográfico e a projeção de força.  

As teorias clássicas voltadas para a busca do poder hegemônico no mundo estruturaram o debate estratégico moderno. Inicialmente, o oficial naval americano Alfred Thayer Mahan, em sua obra clássica de 1890, postulou a teoria do poder marítimo, argumentando que as nações que controlassem as linhas de comunicação oceânicas e os pontos de estrangulamento marítimos dominariam o comércio global e, consequentemente, a política mundial. Em contraposição a essa visão marítima, o geógrafo britânico Halford Mackinder formulou em 1904 a teoria do poder terrestre, cunhando o conceito de área pivô ou região cardíaca, o chamado Heartland, uma vasta extensão na Eurásia que, por ser inacessível ao poder naval, constituiria a fortaleza natural a partir da qual uma grande potência poderia subjugar o restante da ilha mundial e o planeta.  

Mais adiante, o progresso tecnológico e as lições dos grandes conflitos do século vinte trouxeram novas dimensões ao pensamento estratégico. Giulio Douhet e Alexander Seversky revolucionaram o planejamento de defesa ao estruturarem a teoria do poder aéreo entre as décadas de 1920 e 1950, demonstrando que a quebra de bloqueios terrestres e marítimos pela aviação criava uma zona de decisão aérea onde a capacidade industrial e a supremacia tecnológica determinariam o vencedor de uma guerra. Finalmente, em 1942, Nicholas Spykman refinou essas visões ao propor a teoria das fímbrias, o conceito de Rimland, argumentando que a verdadeira chave para o controle do mundo não residia no centro eurasiano, mas sim no arco periférico que o circundava, a chamada região marginal, onde ocorreriam os principais conflitos históricos entre as grandes potências.  

A história tem mostrado repetidamente que essas vertentes teóricas não se anulam, mas sim se integram e reagem entre si no cenário real das relações internacionais. O poder marítimo continua sendo básico e essencial para a projeção global de forças, mas ele requer obrigatoriamente o poder terrestre para conquistar e manter territórios de forma permanente, assim como exige o poder aéreo e aeroespacial para se proteger e garantir a superioridade local. Não basta apenas chegar a um ponto estratégico, é preciso ter a capacidade de permanecer nele de forma soberana.  

Hoje, observamos essa dinâmica de forma crua e incontestável em diversos teatros de operações. No conflito do Leste Europeu na Ucrânia, por exemplo, a liberdade de ação das potências ocidentais encontra limites severos e complexos porque o embate se desenrola em uma matriz eminentemente terrestre e aérea, em um espaço geográfico onde há um grande equilíbrio convencional e onde as linhas de suprimento logístico favorecem a proximidade territorial. Essa leitura estritamente realista nos ensina que a eficácia estratégica não resulta apenas do acúmulo de riquezas ou tecnologia, mas sim da compreensão exata das contingências do meio natural e do espaço onde o poder é exercido.  


O Efeito Final Desejado da Geopolítica Brasileira

Quando voltamos os nossos olhos para a evolução histórica do pensamento estratégico na nossa própria pátria, percebemos com orgulho que a construção e a manutenção do território nacional não foram obras do mero acaso ou de linhas casuais, mas sim o fruto direto de visões ousadas, prudentes e de longo prazo que buscavam a integração interna e a preservação do nosso gigantesco espaço geográfico. Compreender a evolução e as bases da Geopolítica Brasileira é compreender um esforço secular de interiorização, pacificação de fronteiras e consolidação de nossa soberania diante das pressões internacionais.  

Os fundamentos dessa mentalidade estratégica existiram de forma empírica muito antes da consolidação da geografia como ciência no final do século dezenove. Os reflexos práticos dessa consciência territorial estão documentados nas ações de expansão colonial, na diplomacia do período imperial e nas decisões de grandes líderes da nossa história, como o imperador Dom Pedro II, o Duque de Caxias e, posteriormente, o Barão do Rio Branco. Todos eles agiram guiados por um profundo senso de ordem, estabilidade institucional e prudência, garantindo a fixação das nossas fronteiras por meio de tratados baseados no princípio do direito de posse e na negociação pacífica, estabelecendo um padrão de comportamento internacional que prioriza a solução diplomática de controvérsias sem nunca abrir mão da prontidão e da defesa de nossa integridade.  

Contudo, o verdadeiro marco zero do planejamento geopolítico sistemático e da busca por uma identidade espacial própria remonta ao ano de 1820, através da figura do patriarca José Bonifácio de Andrada e Silva. Com uma visão verdadeiramente profética sobre o destino nacional, José Bonifácio compreendeu que a independência política precisava ser consolidada por meio de uma vigorosa política de ocupação e integração territorial interna. Ele foi o primeiro pensador a defender publicamente a necessidade de transferir a capital federal da costa litorânea do Rio de Janeiro para o interior profundo do país, especificamente para a região central de Goiás. O argumento central de sua tese assentava-se na segurança estratégica e na necessidade de irradiar o desenvolvimento socioeconômico a partir do centro geográfico, evitando o isolamento das províncias e fortalecendo a coesão nacional contra as ameaças de fragmentação.  

Posteriormente, na década de 1920, o engenheiro e professor Everardo Backheuser trouxe uma valiosa contribuição científica ao introduzir a análise formal da matéria no ambiente acadêmico e militar nacional. Backheuser expressava imensa preocupação com a vulnerabilidade das nossas linhas de fronteira, alertando que manter pequenos contingentes militares isolados e sem apoio logístico para vigiar extensões territoriais gigantescas era uma vulnerabilidade inaceitável para o interesse nacional. Sua solução proposta era altamente cirúrgica e inovadora, consistindo na criação de territórios federais diretamente nas faixas de fronteira, permitindo que o governo central promovesse a colonização direcionada, a construção de infraestrutura básica e a integração econômica dessas áreas remotas com os grandes centros urbanos, unindo a defesa nacional ao desenvolvimento regional.  

Logo em seguida, no início da década de 1930, o pensamento estratégico brasileiro atingiu um novo patamar com a publicação da obra clássica do então capitão Mário Travassos, intitulada Projeção Continental do Brasil. Travassos foi um dos maiores estrategistas que nossa terra já produziu, sendo um verdadeiro pioneiro ao formular projetos integrados para uma política de transportes terrestres voltada para o interior do país, criando o conceito que mais tarde chamaríamos de corredores de exportação. Sua visão estratégica buscava estabelecer ligações terrestres e ferroviárias sólidas com os países vizinhos da América do Sul, permitindo a conexão direta do oceano Atlântico com o oceano Pacífico através da transposição inteligente da cordilheira dos Andes. Travassos também previu com assustadora precisão o papel revolucionário que a aviação civil e militar desempenharia nos transportes a longa distância e na estruturação de sistemas intermodais de transporte. O seu foco principal consistia em consolidar a presença, a interação e a projeção do Brasil no continent sul-americano, transformando o isolamento geográfico em uma rede viva de cooperação econômica e estabilidade estratégica.  


A Escola Superior de Guerra e a Era dos Grandes Pensadores

A partir dos anos 1950, o pensamento estratégico nacional ganhou contornos de alta maturidade com a criação da Escola Superior de Guerra e o surgimento das teses do general Golbery do Couto e Silva. Suas formulações teóricas, que influenciaram de forma marcante os planejamentos estruturais no governo do presidente Juscelino Kubitschek e nas diretrizes dos governos militares subsequentes entre as décadas de 1960 e 1970, focavam na rearticulação definitiva do território nacional e no binômio segurança e desenvolvimento. Golbery enfatizava a necessidade absoluta de promover a integração do espaço interior brasileiro, apontando a Amazônia como a principal fronteira estratégica a ser integrada e protegida de cobiças externas. No campo da defesa e das relações exteriores, ele propôs uma política de articulação diplomática pragmática na busca pelo prestígio nacional, consolidando a influência brasileira na América do Sul e fortalecendo a nossa soberania através do fortalecimento das instituições internas.  

No mesmo período de efervescência intelectual, o renomado sociólogo Josué de Castro apresentava ao mundo uma visão complementar de caráter profundamente humanista e inovador. Josué de Castro redefiniu o conceito da matéria ao defender que ela não deveria ser encarada como uma simples ferramenta de agressão ou de ação política na luta hegemônica entre os Estados, mas sim como uma disciplina científica rigorosa voltada para estabelecer as correlações fundamentais entre os fatores geográficos e os fenômenos sociais, políticos e econômicos. Para ele, as diretrizes políticas de um governo perdem completamente o sentido se forem destacadas da realidade concreta, das contingências do meio natural e das necessidades culturais e socioeconômicas de sua população.  

Nas décadas de 1970 e 1980, a professora Therezinha de Castro consolidou essa tradição com a apresentação de análises brilhantes e propostas pioneiras na geopolítica comparada. Ela foi a grande defensora de uma estratégia de presença ativa do Brasil no Atlântico Sul, alertando para a necessidade de proteger as nossas linhas de comércio marítimo e as riquezas de nossa plataforma continental. Therezinha de Castro também foi a principal idealizadora da projeção brasileira em direção ao continente gelado, defendendo a ocupação física e científica de uma parcela da Antártica e influenciando diretamente a adesão do Brasil ao tratado correspondente. Suas teses preconizavam a manutenção de laços estreitos com os países parceiros do Cone Sul, mantendo viva a grande tradição nacional de integração territorial e busca contínua por prestígio internacional baseado na liderança pacífica e na cooperação mútua.  

Paralelamente, o general Carlos de Meira Mattos projetou o poder nacional em suas obras clássicas, focando especialmente no desenvolvimento socioeconômico e estratégico da Região Amazônica. Meira Mattos defendia com vigor que a soberania brasileira sobre aquele vasto ecossistema dependia obrigatoriamente de duas ações coordenadas: a ocupação física efetiva da faixa de fronteira norte e a manutenção permanente de efetivos militares altamente adestrados e adaptados às complexidades do ambiente de selva. Já na transição para o século vinte e um, a geógrafa Berta Becker, amplamente reconhecida nos meios científicos nacionais e internacionais como a cientista da Amazônia, revolucionou a geografia política contemporânea. Ao atuar diretamente na concepção estrutural do Plano Amazônia Sustentável, Berta Becker ofereceu uma síntese magistral sobre as mudanças geopolíticas decorrentes das transformações ocorridas nas dinâmicas espaciais urbanas e florestais da região, mostrando que a preservação da soberania andava de mãos dadas com a inovação científica e o desenvolvimento socioeconômico das populações locais. 

 

A Geopolítica Brasileira Diante da Nova Ordem Global de 2026

Ao analisarmos com profundidade todo esse valioso legado histórico sob a ótica contemporânea do realismo clássico e das contribuições conceituais da Escola de Copenhague, percebemos de imediato que o ambiente internacional contemporâneo abandonou definitivamente os esquemas rígidos e previsíveis do século passado. As velhas teorias que insistiam em dividir o planeta em panregiões exclusivas e isoladas, controladas por um único polo dominante no hemisfério norte, perderam a sua capacidade de explicar a realidade.  

Neste ano de 2026, o cenário internacional consolidou de forma irreversível uma multipolaridade fluida e complexa, onde o grupo dos BRICS expandiu significativamente a sua relevância política, demográfica e econômica em escala global, tendo incorporado formalmente nações de imenso peso estratégico como o Egito, a Etiópia, o Irã e os Emirados Árabes Unidos, além de atrair o interesse e o alinhamento de dezenas de outros países em desenvolvimento que buscam alternativas viáveis de financiamento e a desdolarização parcial das trocas comerciais globais.  

Essa nova configuração demonstra com clareza que os blocos de poder do século vinte e um são transregionais e profundamente interconectados por redes de comunicação instantânea, fluxos de capitais voláteis e cadeias globais de suprimentos que rompem as tradicionais barreiras geográficas norte e sul. A teoria do choque de civilizações formulada por Samuel Huntington retém uma parcela de validade empírica quando observamos o comportamento e o isolamento estratégico de determinadas culturas ou regimes que se mostram fechados à interação liberal e aos fluxos internacionais de direitos humanos, mas a tônica dominante da nossa era é o pragmatismo econômico e o entrelaçamento de interesses de segurança nacional.  

O prolongamento do conflito militar no Leste Europeu e o agravamento contínuo das tensões geopolíticas no Oriente Médio, que se estendem de maneira crítica e com impactos globais severos até este ano de 2026, servem como uma confirmação indiscutível da teoria da incerteza de Pierre Lellouche. Lellouche previu com precisão o surgimento de uma desordem das nações após a derrocada da velha estabilidade bipolar da guerra fria, caracterizada pela proliferação de ameaças híbridas, guerras por procuração e pela diluição das normas internacionais tradicionais. Diante dessa desordem sistêmica, o Brasil enfrenta o desafio urgente de se posicionar no xadrez global com firmeza, prudência e absoluta clareza de seus interesses nacionais. A nossa capacidade de projeção continental e de influência global depende diretamente da velocidade e da sabedoria com que as nossas lideranças reagem a esses estímulos externos e protegem os nossos ativos estratégicos.  

Se aplicarmos com rigor analítico a teoria do desafio e resposta formulada pelo historiador Arnold Toynbee, na qual o destino e a sobrevivência de um povo são determinados diretamente pela capacidade e pela lucidez de suas elites dirigentes diante das grandes crises históricas, seremos forçados a reconhecer que o nosso país ainda se apresenta como um triste exemplo de oscilação estratégica. O Brasil possui um poder perceptível expressivo e de enorme potencial, se utilizarmos os parâmetros numéricos de avaliação propostos pelo analista americano Ray Cline. Esse poder é sustentado por nossa imensa base territorial, nossa autossuficiência energética, nossa rica biodiversidade e nossa liderança global na produção agropecuária e na exportação de commodities alimentares. Contudo, esse imenso potencial geopolítico é frequentemente neutralizado pela falta crônica de continuidade nas políticas públicas de defesa nacional, pela fragilidade de nossa infraestrutura de transportes intermodais e pela ausência de um projeto de Estado que transcenda as alternâncias partidárias de governo.  

A aproximação célere do ano de 2048, prazo estipulado internacionalmente para a revisão compulsória e potencial abertura de negociações sobre o Tratado da Antártica, exige desde já que a nossa liderança militar e diplomática atue com o máximo de pragmatismo estratégico e visão de futuro. Precisamos garantir a continuidade dos investimentos no Programa Antártico Brasileiro, fortalecendo a nossa pesquisa científica e consolidando a nossa presença física naquele continente estratégico para assegurarmos os nossos direitos soberanos e os nossos interesses ambientais e climáticos na futura mesa de negociações globais, honrando o caminho aberto pelas teses pioneiras de Therezinha de Castro.  

A adaptabilidade e a correta leitura do ambiente analítico são os verdadeiros divisores de águas no cenário global contemporâneo. Ao utilizarmos ferramentas consagradas como a análise estruturada de forças e fraquezas, a matriz SWOT, e a triagem detalhada de cenários políticos e econômicos, a análise PESTEL, mitigamos vulnerabilidades organizacionais e institucionais. A história geopolítica nos prova que a prudência aliada ao preparo técnico é o que garante a solidez de qualquer planejamento estratégico de longo prazo. Devemos olhar para a sabedoria dos nossos pensadores e pioneiros territoriais para construir os caminhos de amanhã com legítima autoridade, estabelecendo metas claras e obtendo o reconhecimento institucional por meio de resultados tangíveis, consolidados e seguros.


Fernando G. Montenegro

Mestre em Ciências Militares e Doutorando em Relações Internacionais

Qualquer Missão Em Qualquer Lugar

"Combata sempre com inteligência."


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