Terrorismo de extrema-esquerda em Portugal: as feridas abertas do pós-revolução
- Fernando G. Montenegro
- há 4 dias
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O dia 25 de Abril de 1974 ficou eternizado na história como o momento da alvorada da liberdade em Portugal. Foi o fim de décadas de ditadura, um sopro de esperança que varreu a Europa e o mundo lusófono. No entanto, o que muitos manuais escolares romantizam e o que a narrativa hegemônica tenta suavizar é o que aconteceu imediatamente no dia seguinte. A queda do regime anterior não trouxe uma transição pacífica e automática para a democracia pluralista que conhecemos hoje. Pelo contrário, mergulhou o país em uma maratona de profunda convulsão política, social e militar que ficou conhecida como Processo Revolucionário em Curso (PREC). Durante esse período conturbado, que se estendeu intensamente até o final de 1975, o território português transformou-se no palco de uma disputa feroz, violenta e de bastidores geopolíticos complexos entre distintas visões de futuro. De um lado, aqueles que defendiam uma democracia pluralista de modelo ocidental; do outro, forças radicais que tentavam implantar uma república socialista totalmente alinhada aos moldes soviéticos e aos regimes comunistas totalitários da época.
Como veterano das Forças Especiais, acompanho e analiso esses fenômenos sob a ótica da inteligência militar e da guerra cognitiva. Sei perfeitamente que ambientes de extrema instabilidade e vácuo de poder oferecem o terreno fértil ideal para a infiltração de correntes ideológicas radicais nas estruturas de defesa de uma nação. Naquele período, a penetração de correntes marxistas nas Forças Armadas portuguesas ocorreu de forma cirúrgica e agressiva, especialmente dentro de setores altamente politizados e estratégicos, como as unidades de Paraquedistas e outros grupos do Exército intimamente ligados ao Movimento das Forças Armadas (MFA).
O Conselho da Revolução, que inicialmente deveria atuar como o fiador técnico da transição democrática, rapidamente passou a se comportar como uma instância de poder com claras aspirações diretivas sobre o rumo ideológico e a soberania da nação portuguesa. Acompanhar a evolução histórica desses fatos nos ajuda a entender como o radicalismo político pode sequestrar as instituições legítimas de um Estado.
A radicalização militar e as origens da violência política
Durante o auge do Processo Revolucionário em Curso, a velocidade com que diversos setores das Forças Armadas foram capturados por correntes ideológicas da esquerda radical foi impressionante. Houve uma concentração assustadora de oficiais simpatizantes e militantes ativos do Partido Comunista Português (PCP) nas fileiras dos Paraquedistas. Esses militares não escondiam suas fontes de inspiração, que iam desde o modelo revolucionário cubano de Fidel Castro e o centralismo soviético até os movimentos insurrecionais africanos de libertação que haviam combatido as próprias tropas portuguesas na Guerra do Ultramar.
Sob essa forte influência, esses setores passaram a intervir politicamente de maneira direta na sociedade civil e na governança do país, ultrapassando sistematicamente todos os limites constitucionais, legais e éticos que deveriam guiar o comportamento de militares profissionais.
Nesse cenário de desordem institucionalizada, testemunhou-se a execução de prisões arbitrárias de cidadãos comuns e opositores, ordenadas e executadas diretamente pelo Comando Operacional do Continente (COPCON), uma estrutura militar paralela e fortemente ideologizada. Houve também o envolvimento direto na promoção forçada de comissões de trabalhadores e de moradores revolucionárias que visavam subverter a propriedade privada e a ordem pública, além de uma constante e sufocante pressão armada exercida contra as nascentes instituições democráticas e os partidos políticos moderados. Para esses militares radicalizados, a queda da ditadura em abril não significava de forma alguma uma transição para a democracia liberal baseada no voto popular e nas liberdades individuais.
Eles enxergavam aquele momento histórico estritamente como o primeiro passo fundamental para uma transformação socialista e totalitária do país, independentemente da vontade real da maioria da população.
O clímax dessa insustentável polarização política ocorreu no dia 25 de Novembro de 1975. Naquela data decisiva, confrontaram-se diretamente no terreno de operações dois projetos absolutamente inconciliáveis para o futuro de Portugal. De um lado da linha, posicionavam-se as forças democráticas e os setores militares moderados que desejavam estabilizar um regime de liberdade, pluralismo político e respeito à lei. Do outro lado, encontravam-se os grupos extremistas que encaravam qualquer tentativa de encerrar o período revolucionário como uma traição intolerável à chamada revolução popular. Foi exatamente nesse contexto de iminente guerra civil que unidades de elite de Comandos, sob a liderança firme e operacional de Jaime Neves e contando com o apoio estratégico crucial de figuras de liderança como Ramalho Eanes, agiram com extrema precisão para neutralizar e impedir uma tentativa de golpe de Estado de grande envergadura promovida pelos setores da esquerda militar, onde os Paraquedistas desempenhavam o papel de ponta de lança.
A bem-sucedida operação militar de novembro evitou de forma cirúrgica a instalação iminente de um regime autoritário de esquerda na Península Ibérica, restaurando com determinação a ordem constitucional e colocando um ponto final definitivo nos excessos do período revolucionário. Contudo, na mentalidade dos militares de esquerda e dos simpatizantes da causa socialista radical, o desfecho desse confronto foi vivido e internalizado como uma derrota humilhante e uma profunda injustiça histórica. O ressentimento profundo gerado a partir desse momento específico alimentaria e justificaria, nos bastidores e na clandestinidade do país, as iniciativas terroristas que surgiriam anos mais tarde. Foi esse sentimento de vingança política que levou à criação formal das Forças Populares 25 de Abril, um grupo de indivíduos que decidiu optar conscientemente pela via da luta armada, do crime organizado e da violência política disfarçada de ideologia como forma de retomar à força aquilo que eles classificavam como a revolução traída.
As Forças Populares 25 de Abril e o terrorismo de extrema-esquerda
É exatamente no seio desse espírito de revanche ideológica crônica que nasceram formalmente as Forças Populares 25 de Abril (FP-25 de Abril). Fundadas e operadas por uma mistura perigosa de ex-militares ressentidos da virada de novembro e civis radicalizados ligados à extrema-esquerda revolucionária, essas células operacionais não podem ser analisadas apenas como uma organização criminosa comum no sentido puramente técnico. Elas representaram o reflexo mais violento e armado do ressentimento sistêmico deixado pela derrota política e militar sofrida em 1975. Sob a liderança intelectual e operacional de figuras proeminentes da época, como Otelo Saraiva de Carvalho e José Mouta Liz, o grupo estruturou um programa clandestino meticuloso de resistência revolucionária.
Esse programa não hesitava em fazer uso de métodos violentos e letais, incluindo atentados coordenados com explosivos de alto poder de destruição, assassinatos seletivos de empresários, agentes da autoridade e dissidentes, além de assaltos contínuos a agências bancárias e extorsões financeiras sistemáticas sob a justificativa de imposto revolucionário.
A rede de apoio dessas células terroristas mirava obsessivamente na edificação de um Estado socialista purificado e isolado do bloco ocidental. As análises de inteligência demonstram de forma clara que suas conexões internacionais e seu apoio estratégico, ainda que conduzidos de forma dissimulada, ressoavam e encontravam eco em frentes diplomáticas e operacionais simpáticas a regimes totalitários estrangeiros, como a Cuba castrista e a Líbia liderada por Muammar al-Gaddafi. Nesses locais, o treinamento tático militar avançado, o fornecimento ilegal de armamentos e a troca de experiências em guerrilha urbana e sabotagem eram realidades factíveis que impulsionavam a engrenagem do terrorismo de extrema-esquerda no continente europeu.
A guerra cognitiva e a censura ideológica na imprensa contemporânea
A análise histórica do fenômeno do terrorismo de extrema-esquerda ganha contornos ainda mais graves quando observamos o desenrolar da guerra cognitiva e da censura ideológica na atualidade. Décadas após o encerramento formal das atividades criminosas dessas células revolucionárias, no momento de noticiar o falecimento de um de seus fundadores históricos, José Mouta Liz, ocorrido no ano de 2024 (especificamente em outubro daquele ano), parte expressiva da grande imprensa de Portugal demonstrou uma complacência assustadora ou uma gritante distorção deliberada dos fatos históricos.

O caso do influente jornal Público serve como um exemplo acadêmico de como a narrativa pode ser manipulada nos dias de hoje: em sua primeira publicação na internet sobre o óbito, o veículo de comunicação cometeu o gravíssimo equívoco de classificar a organização terrorista de extrema-esquerda como se fosse um grupo de extrema-direita.
Após fortes reações públicas e críticas nos meios digitais, o erro crasso foi corrigido, mas a segunda versão do texto jornalístico simplesmente apagou por completo qualquer tipo de menção de caráter ideológico.
O grupo armado passou a ser descrito de forma higienizada apenas como uma organização terrorista genérica, despida de suas motivações marxistas, comunistas e revolucionárias. Esse tipo de cobertura de imprensa e de postura editorial não constitui apenas um erro crasso isolado de desinformação profissional, trata-se de um sintoma claro de uma narrativa seletiva e ideologicamente comprometida que impera em certas redações. É o equivalente a um maestro que reescreve intencionalmente a partitura musical para favorecer determinados tons políticos, abafando os acordes incômodos que relembram a responsabilidade direta da esquerda radical no passado de sangue, violência e atentados políticos em solo nacional.
Silenciam-se as causas profundas, obscurecem-se as consequências trágicas para a sociedade e oferece-se aos perpetradores e protagonistas do crime político uma moldura histórica extremamente indulgente, romântica e perdoadora.
Finalmente, após uma terceira tentativa de edição forçada pelas evidências históricas inegáveis e pela pressão da opinião pública atenta, o jornal Público acabou por publicar a designação correta que os fatos exigiam: organização terrorista de extrema-esquerda. No entanto, todo esse malabarismo verbal e o visível esforço institucional em evitar a emissão de uma nota dissonante na sinfonia progressista dizem muito sobre as escolhas de linha editorial que moldam artificialmente o que deve ser lembrado pelas novas gerações e o que deve ser convenientemente arrastado para o esquecimento definitivo sob o tapete da história oficial.
A verdade factual como o nosso compromisso estratégico
O líder terrorista José Mouta Liz encerrou seus dias terrenos aos 86 anos de idade, assistido pelo conforto das instalações modernas de um hospital privado da rede de saúde suplementar portuguesa, usufruindo das plenas garantias socioeconômicas oferecidas precisamente pela sociedade democrática e capitalista que ele tanto tentou destruir por meio de bombas e tiros. Ele não faleceu em meio ao lamaçal de um confronto armado direto com as forças de segurança do Estado, nem sob as privações e riscos letais que ele próprio impôs deliberadamente a tantas famílias e cidadãos inocentes ao longo de sua trajetória na clandestinidade.
Esse personagem viveu muitas décadas a mais do que o corajoso agente da Polícia de Segurança Pública Alexandre Souto, do que o dedicado guarda Álvaro Militão, ou do que a inocente e indefesa criança Nuno Dionísio, que contava com apenas quatro meses de vida e que hoje teria mais de 40 anos caso sua história não tivesse sido tragicamente interrompida, todos ceifados em sua existência terrena em nome de uma utopia revolucionária sangrenta que nem o povo português desejou e nem a democracia recém-conquistada legitimou.
Se temos o firme propósito de preservar a nossa liberdade conquistada a duras penas em abril de 1974, torna-se um dever de consciência lembrar com precisão e clareza de todos aqueles que tentaram sequestrá-la logo em seguida sob o pretexto ideológico, e reverenciar com a devida honra todos os patriotas e militares que lutaram bravamente para resgatar a nossa soberania e o nosso pluralismo político na memorável virada histórica de novembro de 1975.
A verdade histórica não aceita rasuras ideológicas e a história real não pode ser apagada pela conveniência do jornalismo militante contemporâneo.
Fernando G. Montenegro
Veterano das Forças Especiais
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