O Natal Cristão e Outras Operações Psicológicas de Constantino I
- Fernando G. Montenegro
- 24 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

Na equação do poder, os choques sempre consistiram em disputas de vontades. Subjugar a determinação de um adversário, muitas vezes, é mais eficaz do que vencer pela força. Por essa razão, as operações psicológicas (OP) sempre foram uma constante, empregadas por líderes e imperadores em tempos de paz e de guerra ao longo da história.
O imperador Constantino I, que governou o Império Romano de 306 a 337, é um exemplo notável de como a religião e a cultura podem ser transformadas em armas de guerra política e social. Ele usou o cristianismo para promover a unidade de pensamento e garantir a longevidade do Império Romano.
A Origem Não Cristã do 25 de Dezembro e as Operações Psicológicas de Constantino I
Na sociedade cristã ocidental, a maioria aprende desde a infância a comemorar o nascimento de Jesus no dia 25 de dezembro. Muitos crescem com a crença de que, há mais de 2025 anos, ele nasceu em Belém, numa manjedoura, recebendo a visita dos Reis Magos.
Entretanto, a História e a Arqueologia não possuem evidências que registrem o local, o dia ou a época exata do nascimento de Jesus. Inclusive, a data convencionada é historicamente controversa, pois o rei Herodes I, associado ao massacre de bebês, morreu no ano 4 a.C..
A verdade é que a segunda metade de dezembro sempre foi uma época de rituais importantes na Antiguidade.
Solstício de Inverno: A noite mais longa no Hemisfério Norte (entre 21 e 22 de dezembro) era celebrada por sociedades pagãs, como druidas e celtas, com rituais de fertilidade e oferendas a divindades ligadas às forças da natureza.
Saturnália Romana: Os romanos promoviam, no dia 17 de dezembro, a Saturnália, um festival em homenagem ao deus Saturno, com banquetes, danças, jogos e troca de presentes – mais parecido com o Carnaval brasileiro.
Festa Solar Romana: E, crucialmente, no dia 25 de dezembro, os romanos celebravam a grande festa solar.
Constantino I, que apreciava ter sua imagem associada à divindade do Sol Invicto, como aparece em uma moeda de ouro cunhada em 313, fixou a comemoração do Natal em 25 de dezembro, em 336 d.C.. Esse ato fez a nova religião se tornar mais atraente e seduziu mais adeptos ao cristianismo, promovendo uma nova unidade de pensamento romana.
A Estratégia Política: O Slogan e a Credibilidade
Desde o início do século I, os cristãos eram vistos como subversivos por adorarem apenas a Jesus e não ao imperador de Roma, o que gerou perseguições e massacres. Um fator que agravava a impopularidade era a recusa de muitos em servir nas legiões romanas.
Apesar disso, o número de seguidores cresceu até o século IV.
Constantino I, percebendo o potencial político, utilizou esse contexto a favor do Império. Após sua vitória na batalha da Ponte Mílvio (312), atribuída à intervenção divina, ele lançou um poderoso slogan: “Um Deus no Céu, um Imperador na Terra”.
Ferramenta de Operações Psicológicas: O slogan é um elemento essencial de propaganda, uma frase incisiva que atua sobre as motivações do público-alvo.
Ideia-Força: A frase continha uma ideia-força coerente com a época, que atingiu várias camadas sociais, favorecendo a adesão voluntária e levando as massas ao objetivo comum de unidade do Império.
No ano seguinte (313), Constantino proclamou o Édito de Milão, que tirou o cristianismo da clandestinidade ao garantir a liberdade de culto, favorecendo a conversão. Em seguida, concedeu privilégios à Igreja, construiu templos e convocou o Concílio de Niceia (325) para consolidar a doutrina. A conversão se deu rapidamente, atingindo quase todos os segmentos.
Princípios de Sucesso e a Longevidade do Império
Constantino aplicou princípios de operações psicológicas com sabedoria, como: credibilidade, oportunidade, progressividade, continuidade, coerência, antecipação, flexibilidade, unidade de comando, adequabilidade, objetividade e exequibilidade.
A propaganda é a grande ferramenta das OP, pois visa influenciar convicções profundas. No caso de Constantino, essa atuação se deu no nível estratégico. Ao fortalecer a vontade do povo romano e a capacidade de suas Legiões em torno de uma nova ideia, ele garantiu uma significativa sobrevida e longevidade ao Império, promovendo mudanças civilizacionais que ressoam até hoje.
Fernando G. Montenegro
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